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Titulo Avenida da Liberdade, n.º 1
Autores Luís Serpa, Manuel Monteiro (Prefaciador)
Colecção
Documentos
Género
Diversos
Proposto por
Joana Morais Varela
Editor
Hugo Xavier
Formato
15,5x23,5cm
N.º Páginas Estimado
400
Data Estimada
Outubro de 2019
Notas
Palavras repescadas pelo marinheiro e blogger Luís Serpa.
«"Avenida da Liberdade, nº 1" é um condensado de posts do blogue Don Vivo dos anos 2004 a 2007. 

Este Don Vivo descende em linha recta de um outro Don, tão nosso conhecido: tal como no romance de Cervantes, o título nomeia a personagem e a obra. Não será, assim, abusivo colar a estampa de marinheiro experimentado a um certo Luís Serpa, crescido em Moçambique e que, a partir de tenra idade, passou a vaguear por mares e terras do mundo inteiro. Mais: este vagamundo anda também em busca da sua Dulcineia, esteja ela onde estiver, seja ela quem for (por vezes é só um «tu»), acontecendo frequentemente tratar-se de uma cidade, de um país, de um  lugar, de um ambiente. Percorrendo os mares, Don Vivo percorre, experimenta também, diversos géneros literários — da citação (sim, da devida apropriação de palavras exemplares!), do aforismo, do diário até ao conto e mesmo ao romance em folhetins. Não nos espantemos, pois, com a vasta bagagem literária e cultural do nosso herói que conhece por dentro autores, música, pintura, fotografia, cinema que, tal como numa vida bem vivida, maneja com sobriedade e sem exibicionismos,

Assim, no meio da noite se vai o nosso herói aventurando pela escrita adentro e as palavras correm-lhe fluidas e em catadupa, a fazer lembrar uma outra Peregrinação. Está só, à procura da chave que lhe indique o caminho, e,  talvez por isso, com a ânsia que todos temos de partir em busca do fim do nosso rumo, se leia este livro tão sofregamente.» Joana Morais Varela

Cegonhas
Passei uma grande parte da minha vida a treinar cegonhas. Ensiná-las a voar mais alto, mais depressa e com maior capacidade de carga. Queria alugá-las a senhoras cujo desejo fosse ter gémeos. Para os treinos usava garrafas de champanhe trazidas não de Paris mas directamente de Champagne, de Reims. A cada voo mais uma, em menos tempo. A coisa deu um resultadão: as últimas viagens já vinham com uma caixa de Magnum cada uma delas  (já só tinha três. As outras quinze morreram, umas atropeladas por aviões outras abatidas por caçadores. Duas morreram de cirrose no fígado. Infelizmente não consegui vendê-los para foie gras. Os produtores sabem distinguir os fígados das cegonhas dos de patos e gansos).
 
O problema é que não encontrei futuras mamãs que acreditassem que os bebés vêm de Paris no bico de uma cegonha. Eu tinha previsto, forçoso é dizê-lo, a enorme vaga de gémeos que estava para vir. Não contei foi com o cepticismo das pessoas em relação a estas verdades do passado. A esmagadora maioria das futuras mamãs não acredita que os bebés vêm de Paris em bicos de cegonhas.
 
Peguei nas que sobreviveram e dei uma chaminé a cada uma. Assim podiam fazer os ninhos à vontade. Ficavam à frente do gabinete do ministro do Turismo, que as contratou para fazer fotografias dos ninhos e das crias quando as tivessem. Tornaram-se funcionárias públicas, com aqueles salários de assessor que todos nós conhecemos e ainda davam umas aulas de degustação de champanhes por fora. Ficaram ricas.
 
Eu fui trabalhar para um jardim zoológico. Comecei nas aves, claro, mas pedi para mudar mal eles (os manda-chuva) tiveram confiança em mim. Fui para os macacos. Fodido por fodido mais vale sê-lo pelos primos. Assim ao menos fica tudo em casa.
 
Ficava: agora estou reformado. As  cegonhas que treinei chatearam-se da função pública e abriram uma empresa de entregas ao domicílio. Às vezes contratam-me para limpar os armazéns. Pagam-me directamente, sem papéis nem IVA nem mais nada. Vai do bico para o bolso.
 
Agradecem-me muito, são muito gentis comigo, pagam-me na ponta da unha e ainda deixam uma boa gorjeta. Gosto muito delas. Qualquer dia morro. 
Luís Serpa (n. 1957, em Lisboa) é marinheiro por opção e um apaixonado pela literatura.
Em 1966 foi para Quelimane e em 1971 para a então Lourenço Marques, em Moçambique, com uma breve passagem pela Suíça entre as duas. Em 1974 regressou a Portugal e matriculou-se na Escola Náutica Infante D. Henrique. Interrompeu o segundo ano para ir passar uns meses ao Rio de Janeiro, mas voltou a tempo de acabar o curso. Foi para a Marinha Mercante, onde esteve dois anos – dos quais seis meses na marinha Venezuelana. Deu a volta ao mundo num graneleiro que quase afundou no mar do Japão, andou na cabotagem num cimenteiro na costa venezuelana e nas Caraíbas, andou à pescada na Namíbia e fez a sua última viagem na marinha na última viagem do N/M LEIXÕES, Lisboa – Nacala e volta.

Em 1978 inscreveu-se na Escola Superior de Cinema, de que fez apenas o primeiro ano, devido a uma viagem por França e pela Suíça que começou em 1979 e se prolongou por quase vinte anos, com um interregno de um ano em Aveiro, nas dragagens do porto.
Na Suíça lavou pratos, tirou neve dos telhados, trabalhou numa quinta, num Albergue de Juventude, num café, lavou janelas, reparou elevadores (enfim, ajudou a repará-los), fez limpezas, fez videos e montou uma agência de viagens / tour operator / agência de charter em Genebra com base nos Açores, fez transportes de embarcações de vela e a motor no Mediterrâneo e no mar do Norte, fez regatas, deu aulas de vela e de regata, atravessou o Atlântico pela primeira vez à vela, sobrevivendo a um ciclone, casou com uma mulher extraordinária chamada Sandra e teve dois filhos lindos, Tomás e Helena.

Em 1994 resolveu deixar o mar e os barcos e foi enviado pelo ACNUR para o Burundi, onde passou um ano a fazer de logistics officer (e comprou um pequeno veleiro para navegar no lago Tanganyka). Foi durante o genocídio do Rwanda e provavelmente o ano mais intenso da sua vida. Em 1996 voltou à ajuda humanitária, desta vez no então Zaire, com o CICR. Kabyla pai tomava o poder das mãos de Mobutu. Ficou seis meses, no lado governamental.

Em 1997 resolveu regressar a Lourenço Marques, erro que pagou caro e não só porque Lourenço Marques se tinha transformado em Maputo (ou seja, não regressou a lado nenhum). O regresso à Europa, em Dezembro de 1999 permitiu-lhe assistir às celebrações do milénio em Genebra. Deu um salto a Londres, voltou a Genebra para ser estafeta numa companhia de entregas, foi contratado para montar um projecto de turismo enológico em avião privado com base em Neuchatel, Suíça, o projecto abortou e voltou para Portugal.

Passou o pouco que restava de 2001 e 2002 todo a mudar-se da Suíça para Portugal, com passagens por Bruxelas e Paris. Entre 2003 e 2010 tentou viver em Portugal, primeiro da vela e das embarcações de recreio – regatas, escola de vela eventos náuticos - e depois de um projecto chamado Mares – Olhares, uma das poucas coisas que fez pelas quais daria dez anos de vida, talvez quinze.
Em 2010 voltou ao mar, o único meio no qual é recebido de braços abertos. Andou pelas Caraíbas, pelo Mediterrâneo, Brasil, Panamá, atravessou o Atlântico mais quatro vezes e agora está em Palma de Mallorca desde 2018 por causa de uma embarcação de vela chamada PANDA pela qual se apaixonou, apesar de todas as promessas feitas a si próprio de que isso nunca mais voltaria a acontecer.
 
Escreve desde pequeno, mas por felicidade tudo o que escreveu foi-se perdendo. Em 2003 decidiu contrariar tanta felicidade e criou o blogue Don Vivo, com o intuito de aí armazenar as coisas que ia escrevendo. O blogue ganhou vida própria e tornou-se uma parte integrante, importante e essencial da sua vida.

Para além dos eventos náuticos organizou eventos culturais com a Ler por aí… um projecto cultural cujo objectivo é unir a literatura e a geografia (não que seja muito preciso, é uma união que existe provavelmente desde que a geografia e a literatura existem. Mas o facto de o vinho existir há milhares de anos não impede ninguém de o beber, pois não?) Na Ler por aí… organizou jantares culturais e ajudou na abertura da livraria-café, um espaço a que em segredo chamou “La Bourlingue” porque é a palavra de que mais gosta em todas as línguas do universo.

Gosta de ler e de fotografar, paixões que herdou do Pai, ele também marinheiro. Gosta de navegar, se bem “gostar” não seja o verbo apropriado; e de conhecer as pessoas, coisa estranha num tipo que é fundamentalmente tímido. Gosta de comer e de beber, pelo que aprendeu a cozinhar - com a tia Mamé, uma senhora que escreveu um dos livros da vida dele: um receituário que tanto quanto sabe nunca foi publicado mas que devia ser obrigatório em todas as escolas do país, porque um homem só é verdadeiramente autónomo quando sabe cozinhar.

Espera um dia estabelecer-se simultaneamente em Mértola, em Lisboa, em Palma e em Genebra e nos intervalos ir a Jost van Dyke beber painkillers, a S. Luis do Maranhão ver os amigos que lá deixou e tanta falta lhe fazem e a Bocas del Toro porque sim.

Aos sessenta e um anos continua maravilhado com tudo o que vê, vive, sonha e ama, coisa que um espírito mais sóbrio atribuiria sem dúvida a um excesso de ingenuidade e ele também.
 
Palma, 13-05-2019
Sem informação.
Impresso em papel snowbright com sêlo ambiental.
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